As informações estão presentes no relatório intitulado “Previsão de mercado global de frota e MRO 2026-2036”, elaborado pela consultoria Oliver Wyman, que explora as tendências do setor aéreo e da manutenção de aeronaves na próxima década.
Conforme o documento, a indústria obteve lucros líquidos de 39,5 bilhões de dólares em 2025, com uma margem de 3,9%, que representa um avanço em relação aos 2,9% do ano anterior. Essa melhora, entretanto, não foi uniforme entre diferentes regiões.
A Europa se destacou com o maior lucro líquido total, enquanto o Médio Oriente atingiu as margens mais elevadas, cerca de 9%. Tanto a América Latina quanto a Europa apresentaram margens em torno de 5%.
Embora a América do Norte se mantenha como o maior mercado global, a expectativa de demanda está quase estagnada. Fatores como instabilidade política, políticas migratórias mais rigorosas, escassez de controladores aéreos e cortes orçamentários do governo dos Estados Unidos estão entre os motivos dessa situação. Em contrapartida, a região da Ásia-Pacífico teve o maior crescimento na demanda, com um aumento de 8% em relação ao ano anterior, embora com margens menores.
A maior preocupação da indústria é a capacidade de atender à demanda crescente. Em 2026, a quantidade de aeronaves encomendadas a serem entregues é de aproximadamente 17 mil, mais do que o dobro do número registrado antes da pandemia. A previsão é que a resolução desse atraso leve mais de 12 anos, devido a problemas persistentes nas cadeias de suprimentos. A consultoria acredita que essas dificuldades vão restringir a produção global até, pelo menos, 2030, resultando em uma falta potencial de mais de 6 mil aeronaves que poderiam ter sido produzidas em condições normais.
Os efeitos dessa situação já estão sendo sentidos pelas companhias aéreas, com a idade média da frota global em 2025 chegando a cerca de 13 anos, cerca de um ano e meio a mais do que em 2024. As horas de voo por aeronave também aumentaram aproximadamente 2%.
Apesar desses desafios, as previsões de longo prazo para o setor continuam otimistas. Estima-se que a frota comercial mundial cresça de 30.046 aeronaves em 2025 para 41.135 em 2036, resultando em uma taxa média de 3,2% ao ano, embora esse crescimento esteja cerca de seis anos atrasado em relação às previsões anteriores à pandemia.
A Índia deverá liderar esse crescimento na próxima década com uma taxa anual de 7,1%, seguida pelo Médio Oriente com 5%. A China, por outro lado, se destacará pelo aumento absoluto no número de aeronaves.
A tendência de dominação de aviões de fuselagem estreita deve se intensificar, passando de 63% da frota mundial em 2025 para 69% em 2036.
O envelhecimento da frota também impulsiona o mercado de manutenção, reparação e revisão de aeronaves (MRO). Em 2025, os gastos com manutenção devem alcançar 136 bilhões de dólares, um aumento de 8% em relação a 2024 e cerca de 30% superior aos níveis de 2019. Até 2036, esse mercado pode ultrapassar 193 bilhões de dólares, quase o dobro do que foi registrado antes da pandemia.
Os maiores investimentos estão na manutenção de motores, que deverá atingir 70,1 bilhões de dólares em 2026, seguida por manutenção estrutural e de componentes.
Plataformas como o Airbus A320neo devem liderar a demanda por serviços de manutenção até 2036, enquanto motores como o CFM International LEAP terão um aumento significativo na necessidade de manutenção ao longo da próxima década.
Outro desafio crítico é a falta de profissionais qualificados. Nos Estados Unidos, cerca de 41% dos mecânicos certificados na aviação civil têm mais de 60 anos, e aproximadamente 45 mil técnicos devem se aposentar na próxima década. A escassez de controladores aéreos já está afetando as operações do setor, causando atrasos na Europa em 2025.
Além disso, a diminuição das contratações nas décadas passadas gerou um vazio geracional nas funções de gestão intermediária, dificultando a substituição de profissionais experientes que estão deixando o mercado.
Carlos García Martín, especialista em aviação da Oliver Wyman, ressalta que a indústria enfrenta um novo cenário: a demanda por serviços aéreos é maior do que nunca, ao mesmo tempo em que a capacidade de gerenciamento é menor do que há dez anos. A ausência de aeronaves, a velhice da frota e a falta de talentos técnicos influenciam as estratégias de companhias aéreas, fabricantes e empresas de manutenção, e devem guiar o futuro da aviação na próxima década.


