Nas últimas semanas, a aviação mundial enfrentou uma drástica mudança. Anteriormente, o grande desafio era a escassez de novas aeronaves; agora, o foco está na explosão dos preços do combustível, que quase dobrou, gerando incertezas sobre a sobrevivência das companhias aéreas.

O custo do combustível para aviação aumentou de 85 a 90 dólares o barril, antes dos ataques norte-americanos e israelitas ao Irã em 28 de fevereiro, para valores entre 150 e 200 dólares nas semanas subsequentes. Este aumento forçou as empresas a reavaliar suas projeções financeiras para 2026.

A principal causa desse aumento foi o fechamento do Estreito de Ormuz, vital para o transporte de cerca de 20% do petróleo mundial. Diariamente, as refinarias do Oriente Médio enviavam aproximadamente 470.000 barris de combustível pela região para aeroportos na Europa e em outras áreas, mas esse fluxo sofreu severas interrupções.

O combustível representa, em geral, de 20% a 30% das despesas operacionais das companhias aéreas, sendo a segunda maior categoria de custos, atrás apenas da folha de pagamento. Um aumento repentino desse tipo de despesa, sem a capacidade imediata de repassar aos preços das passagens, traz um risco estrutural significativo.

A vulnerabilidade varia entre as empresas. As companhias aéreas europeias e asiáticas, que possuem mecanismos de proteção contra flutuações cambiais, conseguem lidar melhor com a situação. Por exemplo, a SAS, que não tem cobertura para o combustível nos próximos doze meses, já implementou aumentos temporários de tarifas e cancelou voos.

A Finnair, com mais de 80% de cobertura para o primeiro trimestre, alertou que um conflito prolongado pode comprometer não apenas o preço do combustível, mas também sua disponibilidade. Já as companhias norte-americanas estão quase todas desprotegidas; a Southwest desistiu de sua estratégia de hedge e a United, que gastou 11,4 bilhões de dólares em combustível em 2025, agora enfrenta preços de mercado 60% acima dos valores registrados no início de março.

Os desvios de rota acrescentam ainda mais custos. Com restrições sérias no espaço aéreo, as companhias precisam desviar seus trajetos, aumentar a quantidade de combustível de reserva e fazer paradas técnicas adicionais, enquanto suas equipes enfrentam maior pressão devido ao aumento do tempo de voo.

Durante a conferência ISTAT Americas, especialistas alertaram que essa situação pode desencadear uma onda de liquidações no setor. Também se destacou que os altos custos de manutenção de motores de nova geração deixaram de ser uma preocupação em um cenário de preços elevados de combustível, desafio que antes limitava o interesse em aeronaves mais antigas.

As previsões para a frota se alteraram. O analista do Deutsche Bank, Michael Linenberg, indicou que aeronaves com menor eficiência no consumo de combustível podem ser aposentadas, com algumas sendo retiradas permanentemente, incluindo jatos regionais menores.

Companhias que construíram suas operações com base em modelos antigos estão agora enfrentando a desvalorização de seus ativos a cada aumento do preço do combustível. Até o mês passado, havia dificuldade em obter novas aeronaves, mas a guerra no Irã mudou essa perspectiva, gerando preocupações entre fabricantes e locadoras sobre o adiamento de pedidos já feitos.

Do lado da demanda, a resistência ainda se mantém, pelo menos por enquanto. Durante uma conferência do JP Morgan, várias transportadoras afirmaram que compensaram as perdas com custos de combustível com receitas acima da expectativa. Entretanto, essa resiliência depende da disposição dos passageiros em continuar a aceitar aumentos nas tarifas. Caso o conflito se prolongue durante o verão, que é a alta temporada, o equilíbrio pode ser rapidamente perdido.

A aviação já passou por crises de combustível antes, como a de 2005, impulsionada pelos furacões Katrina e Rita, que culminou na insolvência da Delta e da Northwest. A crise de 2008 forçou a paralisação de diversas companhias ao redor do mundo, e a diferença neste momento é a rapidez e a surpreso do choque, que ocorre em um período em que a indústria esperava se recuperar, em uma região com algumas das rotas mais lucrativas.

O futuro do setor agora depende da situação no Estreito de Ormuz. Se for reaberto, a crise pode ser atenuada; caso contrário, a indústria enfrentará um desafio que será muito mais difícil de lidar.

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