Aviação Comercial: Desafios à Vista Apesar dos Lucros
Com um desempenho financeiro impressionante, as companhias aéreas alcançaram um lucro recorde de US$ 39,5 bilhões (R$ 212,3 bilhões) em 2025, conforme reportado pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) em comunicado divulgado nesta quarta-feira (13). No entanto, para 2026, as expectativas indicam margens mais estreitas, com uma previsão de lucro líquido de apenas 3,9%. Essa situação evidencia a vulnerabilidade estrutural do setor em um contexto global instável.
Altos Lucros, Margens Limitadas
A aviação comercial obteve um resultado positivo mesmo frente a desafios como tarifas e potenciais retaliações comerciais. Contudo, comparando com outras indústrias, a rentabilidade do setor é considerada baixa. Historicamente, as margens líquidas na aviação nunca ultrapassaram os 5%. Para 2026, o lucro projetado é de US$ 7,90 (R$ 42,50) por passageiro, refletindo a limitação da capacidade das empresas em lidar com turbulências externas. Adicionalmente, mais da metade dos custos operacionais das companhias é expressa em dólares americanos, evidenciando sua vulnerabilidade cambial.
Desafios Regulatórios e Fragmentação
A crescente fragmentação do sistema internacional, em especial no comércio, tem gerado riscos significativos para o setor aéreo. Políticas nacionalistas afetam as cadeias de suprimento e a logística internacional. No âmbito ambiental, a regulação das emissões de CO₂, que foi harmonizada pelo Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) ao longo de anos, está sob pressão devido a diferentes regimes regulatórios que surgem com propósitos variados.
Além disso, a falta de coordenação em políticas tributárias tem gerado distorções competitivas, aumentando os custos operacionais sem produzir resultados satisfatórios em termos de arrecadação ou redução das emissões.
Crescimento Limitado pela Cadeia de Suprimentos
Atualmente, o setor aéreo enfrenta um número recorde de pedidos de aeronaves, o que, embora sugira uma recuperação, revela um descompasso que deve persistir até 2031-2034. Essa situação limita o crescimento da oferta, mantendo as taxas de ocupação elevadas e protegendo as receitas unitárias. Contudo, a demora na entrega de novas aeronaves atrasa a renovação de frotas, que é crucial para uma maior eficiência operacional e para os esforços de descarbonização.
Impactos das Mudanças Climáticas
Os riscos relacionados ao clima, assim como a volatilidade dos preços das commodities, têm consequências diretas sobre a infraestrutura e o comércio mundial. A IATA alerta que, para a aviação atingir a meta de zero emissões líquidas até 2050, é fundamental a adoção de políticas públicas estáveis e financiamento consistente. A redução do foco global em questões climáticas pode desacelerar os avanços nesse sentido, resultando em efeitos colaterais, como insegurança alimentar e migrações forçadas, que impactam diretamente o setor aéreo.
Ameaças Cibernéticas e o Crescente Uso de Inteligência Artificial
As ameaças cibernéticas estão aumentando em diversidade e sofisticação, e a interconexão entre instabilidade geopolítica e uma maior dependência da tecnologia digital amplifica os riscos para a aviação. A introdução da inteligência artificial traz novos desafios relacionados à privacidade e à confiança, além de potenciais repercussões econômicas. Apesar de a IA prometer eficiência, a realização de melhorias significativas pode levar tempo.
Perspectiva Econômica e Custos Operacionais
A desvalorização do dólar americano prevista para 2026 pode oferecer vantagens para países que não utilizam a moeda como base, potencialmente reduzindo custos, visto que mais da metade das despesas das companhias é em dólares. No que tange ao mercado de energia, a queda nos preços do petróleo, impulsionada por uma expansão da oferta e mudanças no consumo, pode resultar em menores gastos com combustível, um dos principais custos do setor.
Embora a possibilidade de uma desaceleração econômica severa em 2026 seja considerada baixa, o ambiente global ainda é restritivo ao crescimento do PIB. Essa somatória de riscos diminui a margem de manobra para políticas econômicas eficazes e pode provocar impactos adversos.
Diante de incertezas, o transporte aéreo continua sendo fundamental para uma estratégia de crescimento focada na transição energética, sustentando cerca de 87 milhões de empregos e contribuindo com aproximadamente 4% do PIB global.


